Tutoriais
A história da Internet
Uma breve história
da Internet
“ Quanto mais aumenta nosso conhecimento, mais
evidente fica nossa ignorância”
John Kennedy, ex-presidente dos Estados
Unidos
Este texto é de autoria dos senhores Barry M. Leiner, Vinton
. Cerf, David D.
Clark, Robert E. Kahn, Leonard Kleinrock, Daniel C. Lynch,Jon Postel,
Larry .
Roberts e Stephen Wolff. Se nenhum dos nomes é familiar para
você, saiba que
todos eles, cada um na sua área, são considerados os
pais da Internet. Nada
como a história contada por quem estava lá...
O texto é de propriedade da Internet Society (ISOC), que gentilmente
dá
permissão de republicação aos interessados. Mais
informações e o texto original
podem ser encontrados em www.isoc.org/internet/history/brief.shtml.
A
excelente tradução do texto é de Aisa Pereira
(www.aisa.com.br/aisa).
Introdução da tradução
A melhor história é aquela ouvida de quem fez a história.
E achamos na Internet
o relato em inglês da história da Internet pelos seus
próprios idealizadores!
A Brief History of the Internet – www.isoc.org/internet/history/brief.shtml)
foi escrita por Barry M. Leiner, Vinton G. Cerf, David D. Clark, Robert
E. Kahn,
Leonard Kleinrock, Daniel C. Lynch, Jon Postel, Larry G. Roberts e
Stephen Wolff.
A tradução foi nossa (precisamos “colonizar” a
Internet em português!).
O texto
é
longo, detalhado, mas é uma pérola neste mar de conhecimento
que é a Internet!
Ah, e para quem quiser saber quando a Internet chegou ao Brasil,
a melhor
explicação pode ser encontrada no histórico da
RNP, nossa Rede Nacional de
Pesquisa (www.rnp.br), ok?
Introdução
A Internet tem revolucionado o mundo dos computadores e das comunicações
como nenhuma invenção foi capaz de fazer antes. A invenção
do telégrafo,
telefone, rádio e computador prepararam o terreno para esta
integração de
capacidades. A Internet é, de uma vez e ao mesmo tempo, um mecanismo
de
disseminação da informação e divulgação
mundial e um meio para colaboração
e interação entre indivíduos e seus computadores,
independentemente de
suas localizações geográficas.
A Internet representa um dos mais bem sucedidos exemplos dos benefícios
da
manutenção do investimento e do compromisso com a pesquisa
e o desenvolvimento
de uma infra-estrutura para a informação. Começando
com as primeiras pesquisas
em trocas de pacotes, o governo, a indústria e o meio acadêmico
tem sido parceiros
na evolução e uso desta excitante nova tecnologia. Hoje,
termos como
nome@nomedeempresa.com (ou nome@nomedeempresa.com.br, no caso do Brasil)
e http://www.nomedeempresa.com (ou http://www.nomedeempresa.com.br,
no caso
do Brasil) são usados diariamente por milhões de pessoas.
Nesta análise, muitos de nós, envolvidos com o desenvolvimento
e a evolução
da Internet, dão suas visões sobre as origens e a história
da Internet. A história
envolve quatro aspectos distintos:
* a evolução tecnológica que começou com
as primeiras pesquisas sobre
trocas de pacotes e a ARPANET (www.cbi.umn.edu/darpa/arpanet.htm) e
suas
tecnologias, e na qual a pesquisa atual continua a expandir os horizontes
da
infra-estrutura em várias dimensões como escala, desempenho
e funcionalidade
de mais alto nível;
* os aspectos operacionais e gerenciais de uma infra-estrutura operacional
complexa e global;
* o aspecto social que resultou numa larga comunidade de internautas
trabalhando
juntos para criar e evoluir com a tecnologia;
* e o aspecto de comercialização que resulta numa transição
extremamente
efetiva da pesquisa numa infra-estrutura de informação
disponível e utilizável.
A Internet hoje é uma larga infra-estrutura de informação,
o protótipo inicial
do que é freqüentemente chamado a Infra-Estrutura Global
ou Galáxica da
Informação. A história da Internet é complexa
e envolve muitos aspectos -
tecnológicos, organizacionais e comunitários. E sua influência
atinge não somente
os campos técnicos das comunicações via computadores,
mas toda a
sociedade, na medida em que usamos cada vez mais ferramentas on-line
para
fazer comércio eletrônico, adquirir informação
e operar em comunidade.
A origem da Internet
Os primeiros registros de interações sociais que poderiam
ser realizadas através
de redes foram uma série de memorandos escritos por J.C.R. Licklider,
do
MIT - Massachussets Institute of Technology (www.mit.edu),
em agosto de 1962,
discutindo o conceito da “Rede Galáxica”. Ele previa
vários computadores
interconectados globalmente, pelo meio dos quais todos poderiam acessar
dados
e programas de qualquer local rapidamente. Em essência, o conceito
foi
muito parecido com a Internet de hoje. Licklider foi o primeiro gerente
do
programa de pesquisa de computador do DARPA, começando em outubro
de
1962. Enquanto trabalhava neste projeto, ele convenceu seus sucessores
Ivan
Sutherland, Bob Taylor e Lawrence G. Roberts da importância do
conceito de
redes computadorizadas.
Leonard Kleinrock, do MIT, publicou o primeiro trabalho sobre a teoria
de
trocas de pacotes, em julho de 1961, e o primeiro livro sobre o assunto,
em
1964. Kleinrock convenceu Roberts da possibilidade teórica das
comunicações
usando pacotes em vez de circuitos, o que representou um grande passo
para
tornar possíveis as redes de computadores. O outro grande passo
foi fazer os
computadores conversarem. Em 1965, Roberts e Thomas Merrill conectaram
um computador TX-2 em Massachussets com um Q-32 na California com uma
linha discada de baixa velocidade, criando assim o primeiro computador
de
rede do mundo. O resultado deste experimento foi a comprovação
de que computadores
poderiam trabalhar bem juntos, rodando programas e recuperando dados,
quando necessário, em máquinas remotas, mas que
o circuito do sistema
telefônico era totalmente inadequado para o intento. Foi confirmada
assim a
convicção de Kleinrock sobre a necessidade de trocas
de pacotes.
No final de 1966, Roberts começou a trabalhar no DARPA para
desenvolver o
conceito das redes computadorizadas e elaborou o seu plano para a ARPANET,
publicado em 1967. Na conferência em que ele apresentou este
trabalho, houve
também uma apresentação sobre o conceito de redes
de pacotes desenvolvida
pelos ingleses Donald Davies e Roger Scantlebury, da NPL-Nuclear Physics
Laboratory (mist.npl.washington.edu/home.html). Scantlebury conversou
com
Roberts sobre o trabalho da NPL e do trabalho de Paul Baran e outros
em RAND.
O grupo do projeto RAND tinha escrito um trabalho sobre o papel das
redes de
trocas de pacotes para voz segura, quando serviam militarmente em 1964.
O que
se percebeu então é que os trabalhos desenvolvidos no
MIT (1961-67), RAND
(1962-65) e NPL (1964-67) estavam se desenrolando em paralelo sem que
nenhum
dos pesquisadores soubesse dos outros trabalhos. A palavra “pacote” foi
adotada do trabalho desenvolvido no NPL, e a velocidade de linha proposta
para
ser usada no projeto da ARPANET foi elevada de 2,4 Kb para 50 Kb.
Em agosto de 1968, depois de Roberts e o grupo do DARPA terem refinado
a
estrutura e especificações para a ARPANET, uma seleção
foi feita para o desenvolvimento
de um dos componentes-chave do projeto: o processador de interface
das mensagens (IMP). Um grupo dirigido por Frank Heart (Bolt Beranek)
e
Newman (BBN) foi selecionado. Paralelamente ao trabalho do grupo da
BBN
nos IMPs, com Bob Kahn assumindo um papel vital do desenho arquitetônico
da ARPANET, a topologia e economia da rede foi desenvolvida e otimizada
por
Roberts em conjunto com Howard Frank e seu grupo da Network Analysis
Corporation, e sistema de mensuração da rede foi preparado
pelo pessoal de
Kleinrock na UCLA – University of California at Los Angeles.
(www.ucla.edu).
Devido à teoria de trocas de pacotes de Kleinrock e seu foco
em análise, desenho
e mensuração, seu Centro de Mensuração
de Rede da UCLA foi escolhido para ser
o primeiro nó (ponta) da ARPANET. Isso aconteceu em setembro
de 1969, quando
BBN instalou o primeiro IMP na UCLA e o primeiro servidor de computador
foi
conectado. O projeto chamado Aumento do Intelecto Humano, de Doug Engelbart,
que incluía NLS (um precursor dos sistemas de hipertexto), no
SRI – Stanford
Research Institute (www.snatford.edu/home/research/centers_eng.html)
foi o segundo
nó ou ponta. SRI passou a manter as tabelas de “Host Name” para
o
mapeamento dos endereços e diretório do RFC. Um mês
depois, quando SRI foi
conectado à ARPANET, a primeira mensagem entre servidores foi
enviada do laboratório
de Kleinrock para o SRI. Dois outros “nodes” foram acrescentados
então: a
UC Santa Barbara (www.uscb.edu) e a Universidade de Utah (www.utah.edu).
Estes
dois nós incorporavam projetos de aplicações visuais,
com Glen Culler e Burton
Fried na UCSB investigando métodos de uso de funções
matemáticas para restaurar
visualizações na rede, e Robert Taylor e Ivan Sutherland
em Utah investigando
métodos de representação em terceira dimensão
na rede. Assim, no final de 1969,
quatro servidores estavam conectados na ARPANET e, mesmo naquela época,
os
trabalhos se concentravam tanto na rede em si como no estudo das possíveis
aplicações
da rede. Esta tradição continua até hoje.
Computadores foram rapidamente adicionados à ARPANET nos anos
seguintes,
e os grupos de trabalho desenvolveram um protocolo servidor a servidor
funcionalmente completo e outros softwares de rede. Em dezembro de
1971, o
Network Working Group (NWG), gerenciado por S. Crocker, concluiu o
primeiro
protocolo servidor a servidor da ARPANET, chamado Network Control
Protocol (NCP). De 1971 a 1972, os usuários da rede finalmente
puderam começar
a desenvolver as suas aplicações. Em outubro de 1972,
Kahn organizou
uma grande e bem-sucedida demonstração sobre a ARPANET
na Conferência
Internacional de Comunicação entre Computadores (ICCC).
Esta foi a primeira
demonstração pública da nova tecnologia de rede
para o público. Foi também
em 1972 que o correio eletrônico, considerado a primeira aplicação “hot”,
foi introduzido. Em março de 1972, Ray Tomlinson, da BBN, escreveu
o software
básico de e-mail com as funções de “send/enviar” e “read/ler”,
motivado pela
necessidade dos desenvolvedores da ARPANET de ter um fácil mecanismo
de
coordenação. Em julho, Roberts expandiu a utilidade do
e-mail escrevendo o
primeiro programa utilitário de e-mail para listar, ler seletivamente,
arquivar,
encaminhar e responder a mensagens. Dali, o correio eletrônico
se tornou a
maior aplicação de rede por mais de uma década.
Este foi o prenúncio do tipo
de atividade que vemos hoje na WWW, ou seja, o enorme crescimento de
todos
os tipos de aplicações e utilitários agregados
pessoa a pessoa.
Os conceitos
iniciais da Internet
A ARPANET original cresceu e se tornou a Internet. A Internet foi baseada
na
idéia de que haveria múltiplas redes independentes de
desenho arbitrário, começando
com a ARPANET como rede pioneira de trocas de pacotes, mas logo
incluindo redes de satélites, de rádio, etc. A Internet
como conhecemos hoje
incorpora uma idéia-chave: rede de arquitetura aberta. Nesta
abordagem, a
opção pela tecnologia de qualquer rede individual não é ditada
por nenhuma
arquitetura de rede particular, e sim escolhida livremente pelo provedor,
que a
torna capaz de entrar em rede com outras redes pela “Arquitetura
de
Internetworking”. Até aquele período, havia apenas
um método para agregar
redes: a tradicional troca de circuitos, na qual redes se interconectavam
no
nível do circuito, passando bits individuais em base síncrona
por um circuito
ponta a ponta entre duas localidades. Lembre-se de que Kleinrock tinha
mostrado
em 1961 que troca de pacotes era um método mais eficiente. Condições
específicas de interconexão entre redes era outra possibilidade.
Enquanto havia
outras formas limitadas de interconectar redes, todas requeriam que
uma
fosse componente da outra, em vez de agirem como companheiras no oferecimento
do serviço ponta a ponta. Numa rede de arquitetura aberta, as
redes
individuais podem ser separadamente desenhadas e desenvolvidas e cada
uma
pode ter sua interface própria, podendo ser oferecida a usuários
e outros provedores.
Cada rede pode ser desenhada de acordo com o ambiente e os requerimentos
dos seus usuários. Não há restrições
em relação aos tipos de redes
que podem ser incluídas numa área geográfica,
apesar de algumas considerações
pragmáticas ditarem o que é razoável oferecer.
A idéia de redes de arquitetura aberta foi primeiro introduzida
por Kahn, em
1972. Este trabalho foi parte de um programa de pacotes de rádio,
mas depois
se tornou um programa em separado. Naquele tempo, o programa foi chamado
“
Internetting”. NCP não tinha a habilidade de endereçar
redes e máquinas
além da destinação IMP da ARPANET e, portanto,
deveria ser mudado. NCP se
amparava na ARPANET para prover confiabilidade de ponta a ponta. Se
qualquer
pacote fosse perdido, o protocolo e qualquer aplicação
que ele suportasse
iria simplesmente parar a transferência de dados. Nesse modelo,
NCP não
tinha controle de erro ponta a ponta, uma vez que pensava-se que a
ARPANET
seria a única rede em existência e ela seria tão
confiável que nenhum controle
de erro seria necessário por parte dos servidores. Então,
Kahn decidiu desenvolver
uma nova versão do protocolo que iria satisfazer as necessidades
de um
ambiente de redes de arquitetura aberta. Este protocolo iria eventualmente
ser
chamado Transmission Control Protocol/Internet Protocol (TCP/IP). Enquanto
NCP agia como um driver de equipamento, o novo protocolo seria mais
um
protocolo de comunicações.
Quatro regras foram críticas para a idéia de Kahn:
*cada rede distinta deveria ser independente, e mudanças internas
não
deveriam ser requisitadas para conectá-las à Internet;
* comunicações seriam na base do melhor esforço.
Se um pacote não chegasse
à
sua destinação final, ele seria retransmitido da fonte;
*caixas pretas seriam usadas para conectar as redes. Mais tarde elas
seriam
chamadas gateways e roteadores. Os gateways não reteriam informações
sobre
os fluxos de pacotes passantes. Isso assegurou que eles se mantivessem
simples, evitando adaptações complicadas e recuperações
de erros;
* não haveria controle global no nível operacional.
Outros itens avaliados foram os seguintes:
* algorítmos para prevenir perda de pacote de comunicações
desabilitadas,
capacitando-os a serem retransmitidos da fonte;
*provimento de “pipelining” de servidor a servidor, de
forma que múltiplos
pacotes poderiam ser roteados da fonte ao destino à vontade
dos servidores
participantes, se redes intermediárias o permitissem;
* funções de gateway (porta de entrada) para encaminhar
os pacotes apropriadamente.
Isso incluiria cabeçalhos de IP para roteamento, interfaces
dirigidas, quebra de pacotes em pedaços menores (caso necessário),
etc;
* a necessidade de checagens ponta a ponta, recuperação
dos pacotes de
fragmentos e detecção de duplicatas;
* a necessidade do endereçamento global;
* técnicas de controle de fluxo servidor a servidor;
* interfaces com vários sistemas operacionais;
*eficiência da implementação, performance entre
as redes, etc.
Kahn começou a trabalhar na série orientada às
comunicações dos princípios
do sistema operacional enquanto na BBN, e documentou alguns dos seus
pensamentos num memorando interno chamado “Princípios
de Comunicações
para Sistemas Operacionais”. Neste ponto, ele percebeu que seria
necessário
aprender os detalhes de implementação de cada sistema
operacional para ter a
chance de embutir neles novos protocolos de uma forma eficiente. Assim,
na
primavera de 1973, depois de começar o projeto “internetting”,
Kahn chamou
Vint Cerf (então trabalhando em Stanford) para trabalhar com
ele no desenho
detalhado do protocolo. Cerf tinha se envolvido intimamente com o desenho
e
desenvolvimento do NCP original e já tinha o conhecimento em
interfacing
com os sistemas operacionais existentes. A abordagem arquitetônica
para a
comunicação de Kahn e a experiência em NCP de Cerf
possibilitaram a construção
do que se tornou TCP/IP.
O trabalho de Kahn e Cerf foi altamente produtivo e a primeira versão
escrita
da teoria resultante foi distribuída numa reunião especial
do International
Network Working Group (INWG), que tinha sido definido numa conferência
da Sussex University (www.susx.ac.uk), em Setembro de 1973. Cerf tinha
sido
convidado para dirigir este grupo e usou a ocasião para realizar
o encontro do
INWG. Algumas teses básicas surgiram da colaboração
entre Kahn e Cerf:
* comunicação entre dois processos deveria consistir
logicamente de uma
longa corrente de bytes (que eles chamaram de octets). A posição
de qualquer
octet na corrente seria usada para identificá-lo;
* o controle do fluxo seria feito usando janelas e corrediças
e acks. O destino
poderia selecionar quando seria efetuado o reconhecimento e cada ack
retornado seria cumulativo para todos os pacotes recebidos;
* foi deixado em aberto como a fonte e o destino iriam concordar nos
parâmetros das janelas a serem usadas. Padrões foram usados
inicialmente;
* apesar de a Ethernet (sistema de redes que transporta sinais – bits – para
todos os microcomputadores em rede) estar em desenvolvimento em Xerox
PARC naquele tempo, a proliferação de LANs (redes locais)
não era prevista,
muito menos a proliferação de PCs (computadores pessoais)
e estações de
trabalho.
O modelo original foi redes nacionais como a ARPANET, em
que pensava
que não iriam existir muitas como ela. Então um IP de
32 bits foi usado,
dos quais os primeiros 8 bits indicavam a rede e os restantes 24 bits
designavam
o servidor na rede. Esta hipótese de que 256 redes seriam suficientes
para
o futuro próximo passou necessariamente a ser reconsiderada
quando LANs
começaram a aparecer no final da década de 1970.
O trabalho original de Cerf e Kahn sobre a Internet descreveu um protocolo
chamado TCP, que provia todo o transporte e serviços de encaminhamento
na
Internet. Kahn queria que o protocolo suportasse uma série de
serviços de
transporte, desde a entrega seqüenciada de dados totalmente confiável
(modelo
de circuito virtual) até o serviço de datagram, em que
a aplicação fazia uso
direto do serviço básico de rede, o que poderia implicar
em pacotes ocasionalmente
perdidos, corrompidos ou reordenados. Entretanto, o esforço
inicial para
implementar TCP resultou numa versão que somente permitiu circuitos
virtuais.
O modelo funcionou bem para transferência de arquivos e aplicações
de
logins remotos, mas alguns dos trabalhos em aplicações
avançadas, como pacotes
de voz, mostraram que, em alguns casos, a perda de pacotes deveria
ser
corrigida pela aplicação e não pelo protocolo
TCP. Isso levou a uma reorganização
do TCP original em dois protocolos: o simples IP que provia apenas
o
endereçamento e o roteamento dos pacotes individuais, e o TCP
em separado,
que se preocupava com o controle do fluxo e a recuperação
de pacotes perdidos.
Para as aplicações que não queriam os serviços
de TCP, uma alternativa
chamada User Datagram Protocol (UDP) foi adicionada para prover acesso
direto ao serviço básico de IP.
Uma grande motivação inicial para a ARPANET e para a
Internet foi o
compartilhamento de recursos. A conexão das duas redes foi muito
mais econômica
do que a duplicação de caros computadores. Entretanto,
enquanto a transferência
de arquivos e o login remoto (Telnet) foram aplicações
muito importantes,
o correio eletrônico teve o impacto mais significativo das inovações
daquela época. O correio eletrônico ou e-mail criou um
novo modelo, no qual
as pessoas poderiam se comunicar e mudou a natureza da colaboração,
primeiro
na construção da própria Internet e mais tarde
na sua utilização por grande
parte da sociedade.
Outras aplicações foram propostas nos dias iniciais da
Internet, incluindo
comunicação de voz (precursora da telefonia via Internet),
vários modelos de
compartilhamento de arquivos e discos, e os primeiros programas que
mostraram
o conceito de agentes e vírus. Um conceito-chave da Internet é que
ela não é
desenhada para apenas uma aplicação, mas é uma
infra-estrutura genérica na
qual novas aplicações podem ser concebidas, como aconteceu
com a World
Wide Web. Foi e é a natureza do serviço provido pelos
protocolos TCP e IP que
tornam isso possível.
O teste das idéias
DARPA fez três contratos para Stanford (Cerf), BBN (Ray Tomlinson)
e UCL
(Peter Kirstein) implementarem TCP/IP (que foi simplesmente chamado
TCP
no trabalho de Cerf/Kahn, mas que continha ambos os componentes). A
equipe
de Stanford, liderada por Cerf, produziu uma detalhada especificação
e, em um
ano, havia três implementações independentes de
TCP que poderiam operar
em conjunto. Este foi o começo de longa experimentação
e desenvolvimento a
fim de evoluir e amadurecer os conceitos e a tecnologia da Internet.
Começando
com as três primeiras redes (ARPANET, Packet Radio e Packet Satellite)
e
suas comunidades iniciais de pesquisa, o ambiente experimental cresceu
para
incorporar essencialmente qualquer forma de rede e grande comunidade
de
pesquisa e desenvolvimento. E, com cada expansão, novos desafios
surgiram.
As primeiras implementações de TCP foram feitas por sistemas
como Tenex e
TOPS 20. Quando os microcomputadores apareceram, alguns acharam que
TCP
foi grande e complexo demais para rodar neles. David Clark e seu grupo
de
pesquisa no MIT trabalharam para mostrar que poderia haver uma simples
e
compacta implementação de TCP. Eles produziram esta implementação,
primeiro
para o Xerox Alto (a primeira estação de trabalho pessoal
desenvolvida em
Xerox PARC) e depois para o IBM PC. Esta implementação
foi completamente
interoperável com outros TCPs, mas foi feita sob medida para
microcomputadores,
e mostrou que estações de trabalho, tanto quanto sistemas
de grande porte, poderiam
tornar-se parte da Internet. Em 1976, Kleinrck publicou o primeiro
livro
sobre ARPANET, com ênfase na complexidade dos protocolos e nas
dificuldades
que eles introduzem. Este livro foi importante na divulgação
da crença nas redes
com trocas de pacotes para uma grande comunidade.
O desenvolvimento generalizado de LANs, PCs e estações
de trabalho na década
de 80 permitiu a prosperidade da Internet que nascia. A tecnologia
Ethernet,
desenvolvida por Bob Metcalfe, em 1973, na Xerox PARC é agora
provavelmente
a tecnologia de rede dominante na Internet, e os PCs e estações
de trabalho são
os computadores dominantes. A mudança entre poucas redes com
pequeno número
de servidores (o modelo original ARPANET) e muitas redes resultou num
número de novos conceitos e mudanças na tecnologia básica.
Primeiro, isso resultou
na definição de três classes de rede (A, B e C)
para acomodar o alcance das
redes. A classe A passou a representar redes de grande escala nacional
(pequeno
número de redes com grande número de servidores). A classe
B passou a representar
redes de escala regional. E a classe C passou a representar redes locais
(grande número de redes com relativamente poucos servidores).
Uma grande mudança ocorreu como resultado do aumento da escala
da
Internet e os assuntos gerenciais associados. Para facilitar o uso
da rede, nomes
foram atribuídos a servidores para que não fosse necessário
lembrar endereços
numéricos. Originalmente, o número de servidores foi
limitado e, portanto,
foi possível manter uma tabela única de todos os servidores
e seus nomes e
endereços. A mudança para o grande número de redes
independentemente
gerenciadas (por exempo, LANs) significou o fim da tabela única
de servidores,
e o Domain Name System (DNS) foi inventado por Paul Mockapetris, da
USC/
ISI. O DNS permitiu um mecanismo escalarmente distribuído para
resolver
nomes de servidores hierárquicos (por exemplo, www.acm.org)
num endereço
Internet.
O crescimento da Internet também desafiou a capacidade dos roteamentos.
Originalmente existiu um único algoritmo distribuído
para roteamento que foi
implementado uniformemente por todos os roteadores na Internet. Quando
explodiu o número de redes na Internet, e o desenho inicial
de roteamento não
expandiu o suficiente, este foi substituído por um modelo hierárquico
de
roteamento com um Interior Gateway Protocol (IGP) usado dentro de cada
região da Internet e um Exterior Gateway Project (EGP) usado
para ligar as
regiões. Este desenho permitiu que diferentes regiões
usassem diferentes IGPs,
de forma que diferentes requerimentos de custo, rápida configuração,
robustez
e escala pudessem ser acomodados. Não apenas o algoritmo de
roteamento,
mas também o tamanho das tabelas de endereçamento acentuaram
a capacidade
dos roteamentos. Novas abordagens para agregação de endereço,
em particular
roteamento entre domínios sem classe (CIDR) foram introduzidas
para
controlar o tamanho das tabelas de roteamento. Um dos maiores desafios
foi
como propagar as mudanças para o software, particularmente o
software do
servidor. DARPA dava suporte à UC Berkeley para investigar modificações
para
o sistema operacional Unix, inclusive incorporando o TCP/IP desenvolvido
em
BBN. Apesar de Berkeley ter mais tarde reescrito o código para
torná-lo mais
adequado ao sistema Unix, a incorporação do TCP/IP no
Unix BSD foi crítica
para a dispersão dos protocolos na comunidade de pesquisa. Muitos
da comunidade
de pesquisa da ciência da computação já haviam
começado a usar Unix
BSD no seu dia-a-dia e a estratégia de incorporar protocolos
Internet no sistema
operacional da comunidade de pesquisa foi um dos elementos-chave da
larga e bem-sucedida adoção da Internet.
Um dos mais interessantes desafios foi a transição do
protocolo de servidor
da ARPANET de NCP para TCP/IP em 01/01/1983. Foi uma transição
imediata,
requisitando todos os servidores em conversão simultânea
(ou então passariam
a se comunicar via mecanismos específicos). A transição
foi cuidadosamente
planejada pela comunidade por anos antes e foi muito fácil no
dia em que
realmente aconteceu (mas teve como consequência a distribuição
de “buttons”
dizendo “Eu sobrevivi à transição para o
TCP/IP”).
O protocolo TCP/IP tinha sido adotado como padrão de defesa
três anos
antes, em 1980. Tal fato levou diretamente à eventual divisão
entre comunidades
militar e não-militar. Em 1983, a ARPANET estava sendo usada
por um número
significante de organizações de pesquisa e desenvolvimento
e de operações
da defesa. A transição da ARPANET do protocolo NCP para
o protocolo
TCP/IP permitiu a divisão entre a MILNET, que passou a suportar
os requisitos
operacionais, e a ARPANET, que passou a suportar as necessidades de
pesquisa.
Portanto, em 1985, a Internet já estava bem estabelecida como
uma larga
comunidade de suporte de pesquisadores e desenvolvedores e começava
a ser
usada por outras comunidades para comunicações diárias
pelo computador. O
correio eletrônico já estava sendo usado por muitas comunidades,
freqüentemente com sistemas diferentes, mas a interconexão
entre os diferentes
sistemas de correio foi demonstrando a utilidade de comunicação
eletrônica
entre as pessoas.
A transição para a infra-estrutura aberta.
Ao mesmo tempo em que a tecnologia Internet estava sendo experimentalmente
validada e largamente utilizada por um conjunto de pesquisadores da
ciência da computação, outras redes e tecnologias
de rede estavam sendo criadas.
A utilidade das redes computadorizadas - especialmente o correio eletrônico
–
demonstrada por DARPA e pelo Departamento de Defesa dos Estados
Unidos não foi perdida em outras comunidades e disciplinas,
e, ainda na década
de 70, redes começaram a aparecer em qualquer lugar que dispusesse
de fundos
e recursos para isso. O Departamento de Energia dos Estados Unidos
estabaleceu a MFENet para seus pesquisadores em energia de fusão
magnética
e a HEPNet para o grupo de física de alta energia. Os físicos
espaciais da NASA
(www.nasa.gov) seguiram com a SPAN, e Rick Adrion, David Farber, e
Larry
Landweber estabeleceram a CSNET para a comunidade acadêmica e
industrial
da Ciência da Computação com um subsídio
inicial da NSF – National Science
Foundation (www.nsf.gov). A livre disseminação do sistema
operacional Unix
na AT&T resultou na USENET, baseada no protocolo de comunicação
UUCP
incluído no Unix, e, em 1981, Ira Fuchs e Greydon Freeman projetaram
a BITNET,
que ligou os computadores acadêmicos num paradigma do tipo “correio
eletrônico
como imagens de cartão”.
Com a exceção da BITNET e da USENET, estas primeiras
redes (incluindo
ARPANET) tinham sido construídas para um objetivo específico,
isto é, elas
foram criadas largamente restritas a comunidades fechadas de acadêmicos.
Havia
pouca pressão para que as redes individuais fossem compatíveis
e, na verdade,
elas não eram. Mais ainda, tecnologias alternativas estavam
sendo procuradas
pelo segmento comercial, incluindo XNS da Xerox, DECNet e SNA da IBM.
Restou à inglesa JANET (1984) e à U.S. NSFNET (1985)
programas para explicitamente
anunciar seus intentos de servirem à comunidade educacional,
não
importando a disciplina. Mais, a condição para universidades
americanas receberem
fundos do NSF era que “a conexão deveria estar disponível
para todos
os usuários qualificados no campus”.
Em 1985, Dennis Jennings, da Irlanda, passou um ano na NSF liderando
o
programa da NSFNET. Ele trabalhou com a comunidade para ajudar a NSF
a
tomar uma decisão crítica: que o TCP/IP seria mandatório
para o programa da
NSFNET. Quando Steve Wolff chegou à NSFNET em 1986, ele reconheceu
a
necessidade por uma infra-estrutura de rede maior para suportar as
comunidades
acadêmicas e de pesquisa, além da necessidade de desenvolver
uma estratégia
para estabelecer esta infra-estrutura independentemente dos recursos
federais.
Políticas e estratégias foram adotadas para atingir este
fim.
NSF também decidiu suportar a infra-estrutura organizacional
da Internet
da DARPA já existente, hierarquicamente arranjada pelo então
Internet Activities
Board (IAB). A declaração pública desta opção
foi a autoria conjunta pelo grupo
de Engenharia e Arquitetura da Internet da IAB e pelo grupo de Assessoria
Técnica de Rede da NSF do RFC 985 – Requirements for Internet
Gateways– que formalmente assegurou a interoperabilidade entre DARPA e NSF.
Em adição à seleção do TCP/IP para
o NSFNET, agências federais norte-americanas
fizeram e implementaram várias outras decisões políticas
que definiram
a Internet de hoje, como segue:
* Agências federais norte-americanas dividiram o custo da infra-estrutura,
como os circuitos transoceânicos. Elas também apoiaram
os pontos de
interconexão para o tráfego entre agências. Federal
Internet Exchanges (FIX-E
e FIX-W) construídas com este objetivo serviram como modelos
para os pontos
de acesso da rede e facilidades “*IX” que são características
proeminentes
da arquitetura Internet de hoje;
* Para coordenar esta participação, foi formado o Federal
Networking Council
(Conselho Federal de Redes). The FNC cooperou com organizações
internacionais
como o RARE na Europa, através do Comitê de Pesquisa Intercontinental,
para coordenar o apoio da comunidade mundial de pesquisa à Internet;
* Esta participação e cooperação entre
agências em assuntos relacionados à
Internet tem uma longa história. Um acordo sem precedentes realizado
em 1981
entre Farber, representando a CSNET e a NSF, e Kahn, representando
a DARPA, permitiu
à
CSNET compartilhar a infra-estrutura da ARPANET numa base estatística;
* Similarmente, a NSF encorajou redes regionais (inicialmente acadêmicas)
da NSFNET a buscar clientes comerciais, expandir seus estabelecimentos
para
servi-los e explorar as resultantes economias de escala para baixar
os custos
de subscrição para todos;
* No backbone da NSFNET, o segmento de escala nacional da NSFNET, NSF
fez cumprir uma política (Acceptable Use Policy - AUP) que proibiu
o uso do
backbone para objetivos que não fosssem de suporte à Pesquisa
e à Educação.
O resultado previsível e desejado do encorajamento de tráfego
comercial nos
níveis local e regional, enquanto proibindo seu acesso ao backbone
nacional,
foi estimular a emergência e o crescimento de redes privadas
e competitivas
(como PSI, UUNET, ANS CO+RE e outras mais tarde). Este processo de
aumento
de redes privadas e autofinanciadas para usos comerciais foi iniciado
em 1988
numa série de conferências promovidas pela NSF em Harvard’s
Kennedy School
of Government sob o título “A Comercialização
e Privatização da Internet” e na
lista “com-priv” da rede;
* Em 1988, o comitê do Conselho Nacional de Pesquisa norte-americano,
dirigido por Kleinrock e com Kahn e Clark como membros, produziu um
relatório
autorizado pela NSF intitulado “Em Direção a uma
Rede Nacional de Pesquisa”.
Este relatório influenciou o então Senador Al Gore e
anunciou as redes
de alta velocidade, que se tornariam a fundação para
a supeestrada da informação
do futuro;
* Em 1994, o comitê do Conselho Nacional de Pesquisa norte-americano,
novamente dirigido por Kleinrock e novamente com Kahn e Clark como
membros,
produziu um novo relatório autorizado pela NSF intitulado “Fazendo
Idéia
do Futuro da Informação: a Internet e Além”.
Neste documento, a superestrada
da informação foi articulada e tópicos críticos
como direitos da propriedade
intelectual, ética, preços, educação, arquitetura
e regulamentação da Internet
foram discutidos;
* A política de privatização da NSF culminou em
abril de 1995, com o fim do
subsídio ao backbone da NSFNET. Os fundos recuperados foram
competitivamente
redistribuídos para redes regionais para compra de conectividade
nacional
das agora numerosas redes privadas.
O backbone fez a transição entre a rede construída
de roteadores da comunidade
de pesquisa para equipamentos comerciais. Em seus oito anos e meio,
o
backbone cresceu de seis nodes com links de 56 Kb para 21 nodes com
múltiplos
links de 45 Mb. A Internet cresceu para mais de 50 mil redes em todos
os sete
continentes, com aproximadamente 29 mil redes apenas nos Estados Unidos.
Tal foi o peso do ecumenismo, dos recursos da NSFNET (US$ 200 milhões
entre 1986 e 1995) e da qualidade dos protocolos, que em 1990, quando
a
ARPANET foi desautorizada, o TCP/IP tinha suplantado e marginalizado
os demais
protocolos de rede, e IP estava também se tornando o serviço
de sustentação
da infra-estrutura da informação global.
O papel da documentação.
A chave para o rápido crescimento da Internet tem sido o livre
e aberto acesso
aos documentos básicos, especialmente as especificações
dos protocolos.
Os inícios da ARPANET e da Internet na comunidade acadêmica
de pesquisa
promoveram a tradição acadêmica de publicação
de idéias e resultados. Entretanto,
o ciclo normal da publicação acadêmica tradicional
era formal e devagar
demais para a dinâmica troca de idéias na criação
das redes. Em 1969, um
passo importante foi tomado por S. Crocker, então na UCLA, estabelecendo
uma série de notas relativas a “Request for Comments” (RFC,
ou, traduzindo,
Solicitação de Comentários). Estas notas ou memorandos
seriam uma forma
rápida de distribuição de observações
no compartilhamento de idéias com outros
pesquisadores. A princípio, os RFCs eram impressos e distribuídos
pelo
correio tradicional. Quando o File Transfer Protocol (FTP, significando
protocolo
de transferência de arquivos) começou a ser usado, os
RFCs se tornaram
arquivos on-line acessados via FTP. Agora, claro, os RFCs (www.ietf.org/rfc.html)
são facilmente acessados via web em dezenas de sites no mundo.
O SRI – Stanford
Research Institute, no papel de Centro de Informação
de Redes, manteve os
diretórios on-line. Jon Postel atua até hoje como editor
dos RFCs, bem como
gerente da administração centralizada de número
de protocolo.
O efeito dos RFCs foi criar um círculo positivo de retornos,
com idéias e
propostas apresentadas em um RFC gerando outro RFC com mais idéias,
e daí
por diante. Quando algum consenso (ou pelo menos uma série consistente
de
idéias) era atingido, um documento com as especificações
era então preparado.
Estas especificações seriam então usadas como
base para implementações
pelas várias equipes de pesquisa.
Com o tempo, os RFCs se tornaram mais focados nos padrões de
protocolo
(as especificações oficiais), apesar de ainda existirem
RFCs informativos que
descrevem abordagens alternativas ou provêem informações
antecedentes sobre
protocolos e engenharia. Os RFCs são agora vistos como documentos
de
registro nas comunidades de engenharia e padrões da Internet.
O acesso aberto
aos RFCs (grátis, se você tem qualquer tipo de conexão
com a Internet)
promove o crescimento da Internet, porque permite que especificações
reais
sejam usadas como exemplos em classes universitárias e por empreendedores
desenvolvendo novos sistemas.
O correio eletrônico tem sido essencial em todas as áreas
da Internet, e especialmente
no desenvolvimento das especificações dos protocolos,
padrões técnicos
e engenharia da Internet. OS RFCs mais antigos apresentaram um conjunto
de idéias desenvolvidas por pesquisadores de um determinado
lugar para o
resto da comunidade. Depois que o e-mail ou correio eletrônico
começou a ser
utilizado, o padrão de autoria mudou – os RFCs eram apresentados
por coautores
com uma visão comum, independentemente de suas localizações.
O uso de listas de discussão especializada tem há muito
tempo sido usado no
desenvolvimento das especificações de protocolo e continua
a ser uma ferramenta
importante. O IETF tem agora mais de 75 grupos de trabalho, cada um
trabalhando num aspecto diferente da engenharia da Internet. Cada um
desses
grupos tem uma lista de discussão para trocar idéias
sobre documentos em
desenvolvimento. Quando o consenso é atingido num rascunho,
o documentoé então distribuído como um RFC.
Como o rápido crescimento da Internet é acelerado pelo
entendimento da
sua capacidade de promover o compartilhamento de informações,
nós deveríamos
entender que o primeiro papel da rede foi permitir o compartilhamento
da informação sobre seu próprio desenho e operação
através dos RFC. Este
método único para a evolução de novas capacidades
da rede continuará a ser
crítico na evolução futura da Internet.
A formação da comunidade
A Internet representa tanto uma coleção de comunidades
como uma coleção
de tecnologias, e seu sucesso é largamente atribuído à satisfação
das necessidades
básicas da comunidade e à utilização efetiva
da comunidade na expansão
da sua infra-estrutura. O espírito da comunidade tem uma longa
história, começando
com a ARPANET. Os pesquisadores da antiga ARPANET trabalharam numa
comunidade fechada para conseguir fazer as demonstrações
iniciais da
tecnologia de transferência de pacotes descrita anteriormente.
Da mesma forma,
vários outros programas de pesquisa da ciência da computação
promovidos
pela DARPA (Packet Satellite, Packet Radio e outros) foram frutos de
atividades
cooperadas que usavam pesadamente qualquer mecanismo disponível
para coordenar seus esforços, começando com o correio
eletrônico e acrescentando
compartilhamento de arquivos, acesso remoto e WWW. Cada um dos
programas formou um grupo de trabalho, começando com o Grupo
de Trabalho
de Rede da ARPANET. Por conta do papel da ARPANET na infra-estrutura
de
suporte a vários programas de pesquisa, e com a evolução
da Internet, o Grupo
de Trabalho de Rede se tornou o Grupo de Trabalho da Internet.
No final da década de 70, reconhecendo que o crescimento da
Internet foi acompanhado pelo crescimento em tamanho da comunidade de pesquisa interessada
na Internet e que, portanto, havia uma necessidade maior de mecanismos
de coordenação, Vint Cerf, então gerente do Programa
Internet da DARPA,
formou vários grupos de coordenação:
* um Conselho de Cooperação Internacional (ICB – Internet
Cooperation
Board), presidido por Peter Kirstein da UCL, para coordenar as atividades
com
alguns países europeus envolvidos no programa Packet Satellite;
* um Grupo de Pesquisa da Internet (Internet Research Group), para
prover
um ambiente para a troca geral de informações sobre a
Internet;
* e um Conselho de Controle de Configuração da Internet
(ICCB – Internet
Configuration Control Board), presidido por Clark. O ICCB iria assessorar
Cerf
na gerência da florescente Internet.
Em 1983, quando Barry Leiner passou a gerenciar o programa de pesquisa
da Internet na DARPA, ele e Clark reconheceram que o crescimento contínuo
da comunidade Internet demandava uma reestruturação dos
mecanismos de
coordenação. O ICCB foi então substituído
por forças-tarefa, cada uma focalizando
uma área particular da tecnologia (roteamentos, protocolos ponta-a-ponta,
etc.). O IAB (www.iab.org/iab), então chamado Internet Activities
Board ou
Conselho de Atividades da Internet, foi então formado com os
presidentes das
forças-tarefa. Foi uma coincidência que esses presidentes
fossem os mesmos do
antigo ICCB, e Dave Clark continuou a presidi-lo. Depois de algumas
mudanças
no IAB, Phill Gross se tornou o presidente da revitalizada IETF-The
Internet
Engineering Task Force (Força-Tarefa da Engenharia da Internet – www.ietf.org),
naquele tempo apenas uma das forças-tarefa do IAB. Em 1985,
então, houve um
tremendo crescimento no lado prático da engenharia da Internet.
Este crescimento
resultou na explosão dos comparecimentos nas reuniões
do IETF, e Gross
teve que criar uma subestrutura do IETF na forma de grupos de trabalho.
Este crescimento foi complementado por uma grande expansão da
comunidade.
DARPA então tinha deixado de ser o maior financiador da Internet.
Além
da NSFNet e de várias atividades financiadas pelos governos
americano e internacionais,
o segmento comercial começou a se interessar pela Internet.
Também
em 1985, Kahn e Leiner deixaram a DARPA, que não vinha conseguindo
manter seu ritmo de atividades na Internet. Como resultado, o IAB perdeu
seu
patrocinador e progressivamente assumiu o papel de líder na
Internet.
O crescimento da Internet continuou, resultando em nova sub-estruturação
do IAB e do IETF. O IETF combinou Grupos de Trabalho em Áreas,
e designou
Diretores de Áreas. O crescimento do setor comercial trouxe
uma crescente
preocupação em relação ao próprio
processo de standards Internet. A Internet
tinha crescido muito além de suas raízes primárias
de pesquisa, passando a
incluir uma grande comunidade de usuários e atividades comerciais
cada vez
maiores. O processo deveria ser aberto e justo. Esta preocupação,
acompanhada
da necessidade reconhecida de suporte da comunidade da Internet, eventualmente
levou à formação da Internet Society (www.isoc.org)
em 1991, com o
patrocínio da CNRI – Corporation for National Research
Initiatives
(www.cnri.reston.va.us) de Kahn e a liderança de Cerf, então
com a CNRI.
Em 1992, outra reorganização foi feita de forma a reorganizar
o IAB e renomeálo
Internet Architecture Board (ou Conselho de Arquitetura da Internet)
e a
colocá-lo sob o comando da Internet Society. Uma relação
de mesmo nível foi
definida entre o novo IAB e o IESG, com o IETF e o IESG tendo uma maior
responsabilidade na aprovação dos standards. Principalmente
uma relação cooperativa
e mutuamente apoiadora foi formada entre o IAB, o IETF e a Internet
Society, esta última tomando como objetivo a provisão
do serviço e outras
medidas que facilitariam o trabalho do IETF.
O recente desenvolvimento e uso da World Wide Web (WWW) formou uma
nova comunidade, já que muitos dos que trabalham com a WWW não
são pesquisadores
ou desenvolvedores. Uma nova organização coordenadora
foi formada:
o W3C-World Wide Web Consortium (www.w3c.org/W3C). Inicialmente
liderado pelo laboratório para a Ciência da Computação
do MIT, por Tim
Berners-Lee (o inventor do WWW) e Al Vezza, W3C tomou a responsabilidade
de evoluir com vários protocolos e padrões associados
com a Web.
Assim, através das duas décadas da Internet, nós
temos visto uma estável evolução
das estruturas organizacionais desenhadas para suportar e facilitar
uma
sempre crescente comunidade trabalhando em colaboração
com assuntos ligados à
Internet.
A comercialização
da tecnologia
A comercialização da Internet envolveu não somente
o desenvolvimento de
serviços privados e competitivos, mas também produtos
comerciais
implementando a tecnologia da Internet. Nos anos 80, dezenas de vendedores
incoporaram TCP/IP em seus produtos, porque viram compradores para
aquele
modelo de rede. Infelizmente, eles não tiveram informação
sobre como a
tecnologia trabalhava e como os clientes planejavam usá-la.
Muitos a viram
como um add-on que deveria ser adicionado às suas soluções
proprietárias de
redes: SNA, DECNet, Netware, MetBios. O Departamento de Defesa americano
tinha autorizado o uso de TCP/IP em muitas de suas compras, mas tinha
dado
pouca orientação aos seus vendedores em relação
a como construir produtos
TCP/IP de utilidade.
Em 1985, devido à falta de informação e à falta
de apropriado treinamento,
Dan Lynch e o IAB realizaram um workshop para “todos” os
vendedores, para
que eles pudessem aprender como TCP/IP funcionava e que problemas ainda
tinha. Os palestrantes vieram em sua maioria da comunidade de pesquisa
da
DARPA, que tinha desenvolvido os protocolos e os usavam diariamente.
Cerca de
250 representantes de vendedores ouviram 50 inventores e experimentadores.
Os resultados foram surpresas em ambos os lados: os vendedores ficaram
impressionados
com o modo pelo qual os inventores eram tão abertos sobre como
as coisas funcionavam (ou não) e os inventores ficaram felizes
em ouvir sobre
novos problemas que eles não tinham considerado mas que estavam
sendo descobertos
pelos vendedores. Desta forma, uma saudável discussão
em mão-dupla
foi formada, discussão esta que tem durado por mais de uma década.
Depois de dois anos de conferências, tutoriais, encontros e workshops,
um
evento especial foi organizado e para o qual foram convidados os fabricantes
de produtos que rodavam TCP/IP bem o suficiente para se reunirem por
três
dias e mostrar o quanto eles trabalhavam bem juntos – e também
para examinarem
a Internet. Em setembro de 1988, o primeiro Interop trade show foi
realizado. 50 empresas expuseram e 5 mil engenheiros de corporações
consideradas
clientes potenciais vieram ao trade show para ver se tudo funcionava
como prometido. E funcionou! Por que? Porque os fabricantes trabalharam
duro
para assegurar que os produtos de todos operariam com todos os outros
produtos,
mesmo aqueles dos seus competidores. O Interop trade show
(www.zdevents.com/interop) tem crescido imensamente desde então
e hoje é realizado anualmente em sete locais no mundo,
com uma audiência
de quase
250 mil pessoas que querem aprender sobre os últimos produtos
lançados e
discutir a mais recente tecnologia da interoperabilidade.
Paralelamente aos esforços de comercialização
que foram salientados, os fornecedores
começaram a participar dos encontros do IETF, realizados 3 ou
4 vezes
ao ano para discutir novas idéias para extensões do TCP/IP
protocol suite.
De poucas centenas de acadêmicos presentes e pagos pelo governo,
os encontros
do IETF agora reúnem milhares de representantes de fornecedores
e são
pagos pelos próprios participantes, o que ajuda na evoluçaõ do
TCP/IP.
A gerência da rede é um exemplo da interação
entre a comunidade de pesquisa
e a comunidade comercial. No começo da Internet, a ênfase
era definir e
implementar protocolos que atingiam a interoperabilidade. Quando a
rede cresceu,
ficou claro que procedimentos específicos usados para gerenciar
a rede não
mais serviriam. A configuração manual de tabelas foi
substituída pela distribuição
de algoritmos automatizados, e ferramentas melhores foram criadas para
isolar falhas. Em 1987, ficou também claro que seria necessário
um protocolo
que permitisse que os elementos da rede, como roteadores, fossem remotamente
gerenciados, uniformemente. Vários protocolos foram então
propostos, incluindo
o SNMP – Simple Network Management Protocol (Procolo de Gerência
de
Rede Simples, desenhado para a simplicidade e derivado de uma proposta
anterior
chamada SGMP), o HEMS (um design mais complexo da comunidade de
pesquisa) e o CMIP (da comunidade OSI). Uma série de encontros
levou à decisão
de que o HEMS seria desconsiderado como candidato para resolver a disputa,
mas que o trabalho do SNMP e do CMIP prosseguiria, com a idéia
de que o SNMP
poderia ser uma solução a curto prazo, e o CMIP uma solução
a longo prazo. O
mercado iria escolher o que achasse mais adequado. O SNMP é agora
usado
quase universalmente como gerência de rede.
Nos últimos anos, temos visto uma nova fase da comercialização.
Originalmente,
esforços comerciais eram dirigidos aos vendedores, que proviam
os produtos
básicos da rede e, aos provedores, que ofereciam conectividade
e serviços
básicos da Internet. A Internet agora se tornou quase uma “commodity” e
muita atenção tem sido dada recentemente ao uso de sua
estrutura global de
informação para suportar outros serviços comerciais.
Isto tem sido tremendamente
acelerado pela rápida adoção dos browsers e da
tecnologia Web, permitindo
aos usuários acessar a informação linkada em qualquer
lugar do globo.
Produtos estão disponíveis para facilitar a provisão
desta informação, e muitos
dos últimos desenvolvimentos em tecnologia têm sido no
sentido de permitir
cada vez mais sofisticados serviços de informação
no topo da base das comunicações
de dados da Internet.
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